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Três anos de espera por julgamento: o sistema que pune antes de condenar

Mais de 40% dos presos no Brasil aguardam julgamento. Conversamos com defensores públicos, juízes e detentos sobre um sistema que funciona, na prática, como punição antecipada.
SC
Sônia Cavalcante — Direitos e Justiça
25.06.2025 · 12 min de leitura
Atualizado: 27.06.2025

Antônio tem 31 anos e está preso há três anos e dois meses. Ainda não foi julgado. Foi detido em flagrante por porte de drogas — quantidade que, segundo seu defensor público, poderia enquadrá-lo como usuário, não traficante. Mas a distinção legal que poderia mudar tudo ainda não foi decidida por um juiz.

A história de Antônio não é exceção. Segundo o Departamento Penitenciário Nacional, 41,3% da população carcerária brasileira é composta por presos provisórios — pessoas que aguardam julgamento sem condenação transitada em julgado. São mais de 270.000 pessoas.

Como chegamos aqui

O problema não é novo, mas se agravou nos últimos anos. A combinação de um Código de Processo Penal que permite prisão preventiva em uma série de situações, um Judiciário sobrecarregado e uma Defensoria Pública cronicamente subfinanciada criou um sistema onde a espera pelo julgamento pode durar mais do que a pena que seria aplicada.

"Eu atendo casos em que a pessoa já cumpriu mais tempo presa esperando o julgamento do que a pena máxima prevista para o crime que ela é acusada. Isso não é exceção. É rotina." — Defensora pública (nome preservado por questões de segurança funcional)

Quem são os presos provisórios

Os dados do DEPEN mostram que 78% dos presos provisórios são negros, 65% têm menos de 35 anos e 71% não concluíram o ensino médio. A prisão provisória, na prática, tem perfil racial e socioeconômico muito definido.

Juízes ouvidos pela NegativaBR — todos em anonimato, por receio de represálias institucionais — reconhecem o problema mas apontam para a falta de alternativas dentro do sistema atual. "A lei permite a prisão preventiva. O Ministério Público pede. Se eu negar, e o réu cometer outro crime, a responsabilidade recai sobre mim. O sistema cria incentivos para manter preso", disse um magistrado de São Paulo.

O que pode mudar

Há um projeto de lei em tramitação no Congresso que estabeleceria prazo máximo de 180 dias para julgamento de presos provisórios. Se não cumprido, o preso seria solto automaticamente, salvo em casos de crimes hediondos. O projeto tem apoio da Defensoria Pública Nacional e da OAB, mas enfrenta resistência do Ministério Público e de associações de magistrados.

Enquanto o projeto não avança, Antônio espera. Sua próxima audiência está marcada para setembro. Pode ser adiada.