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Inflação dos alimentos atinge 22% no semestre e afeta mais quem já não tinha margem

Os dados do IBGE confirmam o que as filas nos mercados populares já mostravam. Mas os números escondem uma história mais cruel sobre quem absorve o choque e quem consegue repassá-lo.
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Daniela Ramos — Economia
28.06.2025 · 10 min de leitura
Atualizado: 30.06.2025
22%
alta de alimentos no semestre
38%
da renda dos mais pobres vai para comida
9%
da renda dos mais ricos vai para comida

Quando o feijão sobe 30%, quem ganha R$ 1.500 sente diferente de quem ganha R$ 15.000. Isso não é novidade econômica — é aritmética básica. Mas o debate público sobre inflação frequentemente trata o problema como se afetasse a todos da mesma forma, com as mesmas soluções.

Os dados do IBGE para o primeiro semestre de 2025 mostram que o grupo de alimentos e bebidas acumulou alta de 22,3% — o maior resultado semestral desde 2016. Mas quando se desagrega por faixa de renda, o impacto real fica mais claro: famílias com renda de até dois salários mínimos destinam, em média, 38% de sua renda à alimentação. Para famílias com renda acima de dez salários, esse percentual cai para 9%.

O que está subindo mais

Não é o vinho que está encarecendo a cesta básica. São o óleo de soja (alta de 41%), o frango (34%), o arroz (28%) e os legumes (variação entre 25% e 55% dependendo do produto e da região). Todos itens centrais na alimentação de famílias de baixa renda.

"A gente cortou carne há três meses. Agora está cortando frango. O próximo passo é cortar o ovo, mas aí não sei mais o que a gente come." — Dona Maria Aparecida, 54 anos, São Luís (MA)

Por que está subindo

A explicação oficial do governo federal aponta para o El Niño, que afetou safras no Sul do país, e para o câmbio, que encareceu insumos agrícolas importados. Economistas ouvidos pela NegativaBR concordam que esses fatores existem — mas apontam que a concentração do setor de distribuição de alimentos também joga papel relevante.

Quatro redes de supermercados controlam mais de 60% das vendas no varejo alimentar brasileiro. Em momentos de alta de custos, esse nível de concentração facilita o repasse integral dos aumentos ao consumidor — e às vezes um pouco mais.

O que o governo está fazendo

O Ministério da Fazenda anunciou, em maio, um pacote de medidas para conter a inflação de alimentos. Entre elas: redução temporária de impostos sobre alguns produtos da cesta básica e ampliação do Bolsa Família para famílias em situação de insegurança alimentar.

Especialistas ouvidos pela NegativaBR avaliam as medidas como insuficientes para o curto prazo. "Redução de imposto em produto que já tem isenção não resolve nada. E o Bolsa Família, por mais importante que seja, não acompanha a velocidade da inflação", disse uma economista da FGV que pediu para não ser identificada.