A história começa com uma planilha. Em outubro de 2024, uma fonte anônima enviou à NegativaBR um arquivo de 847 linhas contendo contratos de compra de medicamentos firmados por secretarias estaduais de saúde entre 2021 e 2024. A fonte não se identificou. Disse apenas que trabalhava "no sistema há anos" e que não aguentava mais ver.
Passamos oito meses verificando cada linha. Cruzamos os dados com o Portal da Transparência, com registros da ANVISA, com certidões de CNPJ e com informações de processos judiciais. O que encontramos foi um esquema que, por sua simplicidade, é quase elegante.
O mecanismo central era o superfaturamento de medicamentos genéricos. Empresas criadas há menos de dois anos — algumas com capital social de R$ 10.000 — venciam licitações para fornecimento de remédios comuns a preços entre 180% e 340% acima da tabela de referência do Ministério da Saúde.
Para vencer as licitações, as empresas precisavam de habilitação técnica — documentos que provassem experiência prévia no fornecimento de medicamentos. A NegativaBR identificou que pelo menos 14 dessas empresas usavam atestados de capacidade técnica emitidos por outras empresas do mesmo grupo econômico.
A NegativaBR tem acesso a contratos, notas fiscais, certidões de CNPJ e comunicações internas que embasam esta reportagem. Os documentos foram verificados por um auditor independente. Cópias foram entregues ao Ministério Público Federal e à CGU.
A análise identificou contratos suspeitos em seis estados: Pará, Maranhão, Tocantins, Piauí, Rondônia e Mato Grosso. Não é coincidência que todos tenham secretarias de saúde que passaram por trocas de gestão nos últimos quatro anos — o que, segundo especialistas em controle público, cria janelas de vulnerabilidade nos sistemas de auditoria interna.
"Quando troca a gestão, o sistema de auditoria interna fica cego por alguns meses. É exatamente nesse período que os contratos mais problemáticos são assinados." — Auditora federal (identificação preservada a pedido da fonte)
A NegativaBR enviou questionamentos detalhados a todas as secretarias de saúde identificadas na investigação, às empresas envolvidas e aos gestores que assinaram os contratos. Até a publicação desta reportagem, recebemos duas respostas: uma secretaria estadual disse que "os contratos seguiram todos os procedimentos legais" e uma das empresas afirmou que "os preços praticados refletem os custos reais de operação".
Nenhuma das respostas abordou os pontos específicos levantados pela investigação.
O Ministério Público Federal confirmou à NegativaBR que abriu procedimento de investigação preliminar com base nos documentos recebidos. A Controladoria-Geral da União disse que "está analisando as informações". Nenhum dos dois deu prazo para conclusão.
Enquanto isso, os contratos continuam vigentes. Alguns vencem em dezembro de 2025. Outros foram renovados automaticamente em janeiro.